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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Bóson de Higgs: ajuda a jornalistas

É, parece que o tema do momento é o bóson de Higgs. No dia 04/07/2012, cientistas encontraram, no LHC, uma nova partícula que acreditam ser o bóson de Higgs, pois parece se comportar de maneira consistente com o que é esperado dele pela teoria. O problema é que boa parte dos textos "explicativos" encontrados por aí têm muitas partes pouco compreensíveis. Alguns amigos jornalistas me pediram ajuda; aqui vão algumas informações. Elas não substituem os textos de referência; são apenas guias para se orientar melhor por eles. 

O que é o bóson de Higgs? Também chamado bosão de Higgs, é uma partícula subatômica, tal como o próton, o nêutron ou o elétron. Mas, diferentemente do próton e do nêutron, que são formados por partículas ainda menores (são formados por três diferentes tipos de quarks cada um), o bóson de Higgs é uma partícula "elementar", ou seja, não tem constituintes mais básicos (outra partícula elementar é o elétron) - P.S.17/08/12: há no entanto teorias alternativas nas quais o Higgs é composto. Ela ainda não havia sido observada, mas sua existência é uma consequência natural do edifício teórico atual da física das partículas, chamado Modelo Padrão. Uma maneira curta de dizer isso é falar que o Modelo Padrão "prevê" sua existência.

Se o bóson de Higgs é uma partícula subatômica, ele faz parte dos átomos? Não. Ele não existem "por aí", como elétrons e prótons. Na veradade, a maior parte das partículas elementares conhecidas não existe "por aí" nem faz parte dos átomos. Elas só aparecem quando são produzidas em reações envolvendo outras partículas, quando estas colidem entre si em energias muito altas. Elas "vivem" muito pouco, só durante o processo de colisão - em uma pequena fração de segundo, "decaem" em outras partículas. Então, tais partículas só se manifestam nesses casos. Assim é também o bóson de Higgs. Para produzi-las, os físicos usam os aceleradores de partículas, que realizam tais colisões muito energéticas (entre prótons e prótons, por exemplo).

Por que achar o bóson de Higgs é importante? Para verificar se o Modelo Padrão, a teoria atual da física das partículas, está correto.

O que acontece se for provado que o bóson de Higgs não existe? Resposta curta: Se o bóson de Higgs não existir, o Modelo Padrão não estará correto e teríamos que encontrar uma nova teoria modificá-lo bastante. Até aí, nenhuma diferença com qualquer outra previsão da teoria que venha a ser testada. Só que, no caso do bóson de Higgs, o buraco é mais embaixo. Pois a existência do bóson de Higgs está relacionada com princípios muito fundamentais que jazem na própria base da teoria. Se provarem que ele não existe, as consequências seriam catastróficas: a teoria preveria que a massa de todas as partículas - portanto, de toda a matéria conhecida - seria zero! Nesse caso, teriam que achar novos princípios e reconstruir tudo.

Resposta longa: Como eu disse acima, o buraco é mais embaixo do que simplesmente verificar a previsão de uma teoria. O Modelo Padrão se parece mais com um conjunto de teorias com alguns princípios fundamentais comuns que as amarram, formando um todo harmônico e unificado, um edifício teórico portentoso. Se algumas das partículas previstas por ele não tivesse sido confirmada, bem, teriam que mudar coisas grandes no edifício, teriam que talvez trocar uma das teorias amarradas nele. Porém, o caso do bóson de Higgs é particularmente fatal. Ele é uma consequência está relacionado não a uma dessas teorias amarradas no Modelo Padrão, mas sim a um dos princípios fundamentais que subjazem na própria base de todo o edifício. O nome desse princípio é "simetria local de calibre". Trata-se de um conceito um pouco abstrato e para explicá-lo eu teria que gastar um pouco mais de parágrafos; mas o importante aqui é que, se o bóson de Higgs não existir, esse princípio fundamental teria como consequência automática que todas as partículas existentes tenham massa zero (e portanto toda a matéria conhecida teria massa zero). O que é evidentemente um absurdo. Para "salvar" a teoria, foi proposto em 1964 um mecanismo teórico ("mecanismo de Higgs") com o qual as partículas adquiririam massa dentro da teoria. A existência do bóson de Higgs é uma consequência natural desse mecanismo. Assim, se for confirmado que o bóson de Higgs não existe - e se não conseguirem construir nenhum outro "mecanismo teórico" que substitua o de Higgs (P.S. de 14/07/12) -, não poderíamos usar a simetria local de calibre e a teoria terá problemas estará inteiramente errada, no nível de seus princípios mais básicos. Possivelmente teriam que encontrar outros princípios fundamentais para reconstruir uma nova teoria. Partir quase do chão novamente. Daí o auê em torno do bichinho.

O que acontece se a partícula encontrada no dia 04/07/12 não for o bóson de Higgs? Então terão que procurá-lo com outras massas. De qualquer forma, é extraordinário que tenham encontrado uma partícula nova ainda não prevista por nenhum modelo teórico. Sua existência teria que ser explicada, o que poderia levar a desenvolvimentos teóricos bastante excitantes.  

O Brasil está envolvido nessas pesquisas? Sim. Há 7 instituições brasileiras envolvidas nos experimentos que produziram os resultados do dia 04/07 sobre a nova partícula: UFRJ, USP, UFJF, UFSJ, UERJ, CBPF e UNESP. Vide a lista dos países e instituições em:
http://cms.web.cern.ch/content/cms-collaboration (CMS)
e
http://atlas.web.cern.ch/Atlas/Management/Institutions.html (ATLAS)

CMS e ATLAS são dois grupos de pesquisa distintos que buscam o Higgs no LHC. Há vários grupos de pesquisa lá. Uma lista desses grupos está aqui:
http://lhc.web.cern.ch/lhc/LHC_Experiments.htm

Como os brasileiros participaram da busca pelo bóson de Higgs? O anúncio do dia 04/07 é resultado da análise de milhões de dados colhidos pelo LHC ao longo de meses de funcionamento (vide item "Por que o LHC demorou tanto para encontrar o Higgs", abaixo). Esses dados foram analisados por computadores de dezenas de instituições em vários países, entre os quais o Brasil. É possível, porém, que haja também profissionais e estudantes brasileiros participando diretamente no próprio LHC das pesquisas.

Por que o LHC demorou tanto para encontrar o Higgs? O anúncio da nova partícula no dia 04/07 não é resultado de um experimento simples realizado nos dias anteriores. Em um acelerador de partículas, partículas subatômicas colidem violentamente entre si, em velocidades muito próximas à da luz, para produzir partículas novas - entre as quais o bóson de Higgs, se as condições forem adequadas. Acontece que tais experimentos produzem resultados apenas estatísticos, e é preciso deixar o aparelho funcionando por bastante tempo, com muitas colisões ocorrendo, até que os dados estatísticos se acumulem o suficiente e adquiram um grau de certeza que satisfaça os padrões atuais da ciência. Para chegar aos resultados atuais, foi necessário deixar o LHC funcionando por meses a fio, produzindo milhões de dados. Esses dados devem ser analisados por computadores. Não só os do próprio LHC. Há dezenas de instituições espalhadas pelo mundo para analisá-los.

Por que os físicos dizem que o bóson de Higgs explica as massas das partículas subatômicas? A teoria, se fosse desprovida do bóson de Higgs, preveria que as partículas subatômicas não teriam massa, o que é absurdo. Para resolver isso foi proposto o "mecanismo de Higgs", um artifício teórico que tem como consequência natural a existência dos bósons de Higgs. As massas surgem na teoria da seguinte forma: associado ao bóson de Higgs, existe um campo, o "campo de Higgs", análogo aos campos de força conhecidos (elétrico, magnético, gravitacional etc.), e que permeia todo o espaço. Interpretar fisicamente a matemática envolvida é um pouco complicado, mas, segundo a interpretação corrente, as partículas (que não teriam massa sem o bóson), adquirem-na interagindo com o campo de Higgs, como se este fosse um meio viscoso que atrasasse o movimento das partículas, emulando uma "inércia" para elas. Mas, espere, o que explica a massa é o campo de Higgs ou o bóson de Higgs? O campo de Higgs e o bóson de Higgs estão intextricavelmente ligados - na verdade, são dois lados, duas manifestações distintas da mesma realidade física (na teoria quântica, campos de força estão sempre associados a partículas desta forma - os campos elétrico e magnético, por exemplo, estão associados a fótons). Por isso, é possível falar que o próprio bóson "explica" as massas, ao invés de o campo de Higgs.

Obs.: em uma versão anterior, eu tinha dito que achava a frase "o bóson de Higgs explica as massas das partículas" um tanto sensacionalista por não concordar com essa interpretação. Voltei atrás após alguns esclarecimentos.

Se for confirmado que a partícula que encontraram no dia 04/07/12 é mesmo o bóson de Higgs, então, terão "fechado" o Modelo Padrão? Não. Na verdade, a teoria sobre o bóson de Higgs não está completa; falta parte da expressão matemática que o descreve e na verdade não se sabe sequer se existe um ou mais bósons de Higgs. Serão necessários mais experimentos para verificar se há mais deles por aí.

O LHC não é a única instituição procurando o Higgs. Tem também o Fermilab, nos EUA (seu acelerador chama-se "Tevatron"). Existe uma competição entre os dois. Os físicos dizem que não existe rivalidade, mas observe-se só esta matéria, publicada dois dias antes do anúncio do dia 04/07: http://br.noticias.yahoo.com/eua-anunciam-mais-s%C3%B3lida-evid%C3%AAncia-b%C3%B3son-higgs-195858765.html

O que o LHC fará depois que for encontrado o bóson de Higgs? O LHC não foi construído só para procurar o bóson de Higgs. Os bósons de Higgs são apenas a estrela da vitrine para os cientistas justificarem os US$ 9 bilhões investidos (em 1993, um acelerador ainda maior, o SSC, foi cancelado nos EUA porque os congressistas acharam que o preço não o justificava, e isso deixou os cientistas traumatizados).Vejamos:

Primeiro, o LHC também vem testando as previsões de várias teorias que tentam ir além do Modelo Padrão. E vai continuar testando depois. Por exemplo, entre as teorias testadas pelo LHC, existe toda uma classe de teorias diferentes que prevêem a existência de um grupo inteiro de partículas chamadas supersimétricas (a teoria das cordas é uma delas). O LHC vem procurando essas partículas, mas não as tem encontrado. Isso não significa que não existam, elas podem simplesmente ser pesadas demais para o LHC.

Segundo, o LHC pesquisa o que acontece em colisões com energias nunca exploradas antes, e pode ser que novos fenômenos imprevistos sejam encontrados (ou não). Na verdade, há motivos para se supor que o Modelo Padrão não seja a última palavra. Para se construir uma teoria melhor, é preciso encontrar discrepâncias entre as previsões do modelo e os resultados dos experimentos. Essas discrepâncias guiarão os teóricos na construção da nova teoria. Discrepâncias já foram encontradas, mas são poucas demais para que se possa inferir uma nova teoria a partir delas. O LHC vem procurar mais delas.

Mas, afinal, o que é o LHC? Como funciona? O LHC um acelerador de partículas gerenciado pelo Centro Europeu de Pesquisas (CERN), situado exatamente na fronteira entre França e Suíça, perto de Genebra. Um acelerador de partículas é uma máquina serve para estudar experimentalmente a física das partículas (testar teorias ainda não totalmente confirmadas, investigar fenômenos novos, verificar se há discrepâncias com a teoria atual). Algumas partículas subatômicas existem por aí prontas para serem observadas, como elétrons, prótons, fótons e neutrinos. Mas a maior parte delas não; elas só aparecem fugazmente em reações envolvendo outras partículas (assim como em reações químicas, há substâncias que só aparecem fugazmente em estágios intermediários da reação). O bóson de Higgs é uma dessas partículas fugazes. Os aceleradores aceleram partículas a velocidades muito próximas da da luz e fazem-nas colidir violentamente umas com as outras. Isso provoca reações que produzem novas partículas. Essas partículas costumam "viver" pouco tempo - elas rapidamente decaem em outras partículas - e o que os detectores colocados ao redor do aparelho detectam são, na verdade, essas partículas "secundárias". Assim, o bóson de Higgs não é detectado diretamente, o que é detectado são as partículas originárias do seu decaimento. Para identificar a existência do bóson de Higgs, deve-se detectar as partículas observadas, medir suas massas, suas velocidades, e comparar com o que a teoria prevê. Se os dados forem consistentes com o que se espera do comportamento de um bóson de Higgs, então, opa, devemos ter comprovado que eles existem mesmo, apesar de não os termos visto diretamente.

Os aceleradores de partículas não são o único modo de se pesquisar experimentalmente a física das partículas. O outro é a observação de raios cósmicos. A vantagem destes últimos é que com eles é possível observar partículas disparadamente muito mais energéticas que a dos maiores aceleradores (além disso, é muito mais barato). A desvantagem é que não dá para fazer experimentos controlados. O Brasil tem uma tradição na física de partículas com raios cósmicos, que remonta a Gleb Wataghin e a César Lattes.


Por que é tão difícil encontrar o bóson de Higgs? Porque é uma partícula muito pesada. Para uma partícula ser produzida em uma colisão, essa colisão precisa ter energia suficiente, porque na maioria dos casos práticos a massa dessa partícula virá, em sua maior parte, da energia cinética de colisão (lembrando que a teoria da relatividade especial diz que energia pode ser transformada em matéria e vice-versa). Assim, quanto mais pesada a partícula, mais difícil produzi-la. Foram necessários US$ 9 bilhões para conseguir uma máquina que conseguisse acelerar partículas com energia suficiente para produzir a partícula observada no dia 4 - que é 134 vezes mais pesada que o próton.

Por que o LHC é tão grande? Porque, quanto maior a massa da partícula que se quer produzir, maior tem que ser a energia das colisões. Logo, maior a velocidade das partículas que colidem. A velocidade, no caso do LHC, é tão grande que ainda não existe uma forma de obrigar as partículas a fazerem uma curva suficientemente fechada para sua trajetória caber em uma máquina pequena. Ele tem a forma de um anel. Foi necessário então metê-lo em um túnel subterrâneo circular de 27 quilômetros de comprimento.

O LHC pode acabar com o mundo? Não. Esse mito surgiu porque algumas teorias sugerem a possibilidade dele produzir buracos negros microscópicos. Só que o tempo de vida de tais buracos negros seria de uma fração de segundo e não fariam nada com ninguém (talvez nem mesmo fôssemos capazes de detectá-los). Mas isso foi anunciado sem muito cuidado, o que assustou algumas pessoas e produziu um boato que depois adquiriu vida própria.

O que o bóson de Higgs tem a ver com Deus? Nada. "Partícula de Deus" é apenas um apelido bem-humorado. A tradução em português não é muito boa (no inglês, "God particle" é mais "partícula-deus").

O que são esses "GeV" e "TeV" de que os físicos falam? Trata-se de unidades de energia adequadas para a física das partículas, mas são também usadas para medir massa. Um MeV, ou megaelétron-volt, é um milhão de elétrons-volt, assim como um megabyte é um milhão de bytes. Um GeV, ou gigaelétron-volt, é mil MeV, e um TeV, ou teraelétron-volt, é mil GeV. Para se ter uma ideia do tamanho disso, para se retirar um elétron de um átomo de hidrogênio, são necessários 13,6 eV. Se transformarmos um elétron em energia pura (transformação de matéria em energia), obteremos 0,511 MeV. Se transformarmos a partícula encontrada no dia 04/07 em energia pura, obteremos 126 GeV. Então, diz-se, por abuso de linguagem, que sua massa é de 126 GeV.

Esse nome esquisito, "elétron-volt", foi escolhido porque a sua definição formal é: um elétron-volt é a energia cinética que um elétron adquire quando é acelerado (a partir do repouso) por um potencial de um volt.


Algumas considerações adicionais sobre o Modelo Padrão e o pós-Modelo Padrão:

(1) O Modelo Padrão, teve previsões quantitativas verificadas zilhões de vezes de inúmeras formas, não só pela observação de outras partículas que previu, mas também com cálculos quantitativos sobre as interações entre as partículas subatômicas, que podem ser verificados em experimentos nos aceleradores de partículas e em observações de raios cósmicos (como Lattes fazia). À primeira vista, isso pode levar a concluir que o bóson de Higgs necessariamente exista. Seria penas uma confirmação a mais dentre tantas outras.

(2) Porém, por outro lado, há razões muito fortes para se crer que o Modelo Padrão não deva ser a última palavra. Por isso, é possível que o bóson de Higgs não exista, mesmo tendo em vista os sucessos descritos no item (1). A principal razão para essa desconfiança no Modelo Padrão é que ele é incompatível com a Teoria da Relatividade Geral (de Einstein), cujas previsões também já foram verificadas zilhões de vezes. Ou seja, nem o Modelo Padrão e nem a Relatividade Geral devem ser a última palavra. Seria então necessário encontrar uma teoria maior que fosse consistente com ambas, que as englobasse. Isso, na verdade, é uma das principais fronteiras da física teórica hoje, que ocupa gente como Stephen Hawking - a famosa teoria das cordas é uma candidata a ser essa "teoria maior", mas ela ainda não foi verificada experimentalmente; o LHC vem ajudando também nisso. Qual o ponto de partida para construir tal "teoria maior"? O ponto de partida é procurar discrepâncias entre as previsões do Modelo Padrão e os resultados dos experimentos. Essas discrepâncias serviriam como "guia". Na verdade, tais discrepâncias existem, mas são, por enquanto, poucas demais e pequenas demais para tornar possível inferir qualquer teoria a partir delas. É por isso, aliás, que constróem aceleradores cada vez maiores: para encontrar mais de tais discrepâncias. (Ei, mas o LHC não foi construído para encontrar o Higgs? Sim, também, mas essa é a justificativa-vitrine dos 9 bilhões; ele serve para muitas outras coisas.).



Alguns links:

[P.S. 06/07/12] Este post da Tatiana Nahas no seu blog Ciência na Mídia possui vários links interessantes para quem quiser saber mais: A matéria-prima para a formação do Universo em poucos cliques

Este aqui parece bastante explicativo:
http://fisicamoderna.blog.uol.com.br/arch2012-07-01_2012-07-07.html?utm_medium=twitter&utm_source=twitterfeed#2012_07-04_12_44_10-7000670-0

Texto com alguns detalhes mais aprofundados sobre como foi feita a pesquisa, do blog "Física, Futebol e Falácias", do Luís Gregório:
http://fisicafutebolfalacias.blogspot.de/2012/07/na-espera-do-boson-de-higgs.html

Tutorial do Fermilab (em inglês):
http://www.fnal.gov/pub/presspass/press_releases/2012/files/Higgs_Boson_FAQ_July2012.pdf

sábado, 1 de outubro de 2011

O caso dos neutrinos mais velozes que a luz

A essa altura, a maioria dos leitores já ouviu falar da suposta descoberta de partículas mais velozes que a luz, em um laboratório em Gran Sasso, na Itália, há pouco mais de uma semana. São neutrinos, partículas centenas de milhares de vezes mais leves que um elétron e que interagem muito fracamente com a matéria. A velocidade determinada pela Colaboração OPERA com os enormes detetores da figura ao lado foi de apenas 0,00248% acima da velocidade da luz. No entanto, a precisão do experimento foi grande e esse resultado parece contradizer frontalmente a teoria da relatividade especial.

Vários desdobramentos aconteceram nesta última semana. A maior parte dos cientistas está cética, mas as reações variam muito. A essa altura, muita gente já conhece sua reação por meio de entrevistas e matérias de jornais. Mas outra coisa é ver o que dizem em suas publicações científicas. O blog do ArXiv publicou no sábado uma lista de nove artigos que representam o que a comunidade científica anda pensando de tudo isso. Abaixo, falo um pouco sobre eles, mas este post no blog A Física se Move dá muito mais detalhes.

Basicamente, há três tipos de interpretação para os resultados:

a) A anomalia é devida a algum erro dos autores;
b) A anomalia é real e indica uma violação da teoria da relatividade especial;
c) A anomalia é real, os neutrinos viajam mais rapidamente que a luz, mas a teoria da relatividade não é violada (sim, isso é possível).

Além disso, há os cientistas que preferem esperar que outros grupos verifiquem se conseguem reproduzir os dados - como é o caso dos próprios autores, como declararam no seu artigo.

Por que não crêem os que não crêem - Sendon Glashow, prêmio Nobel de física de 1979, é um dos céticos da categoria (a). "Refutamos a interpretação superluminal dos resultados do OPERA", disparou no resumo do seu artigo, escrito junto com Andrew G. Cohen. Seu argumento é que, pelos seus cálculos, os neutrinos perderiam energia pelo caminho, que seria convertida em matéria por meio da produção de elétrons e pósitrons, e eles não poderiam de forma alguma alcançar o detector do OPERA com velocidade acima da luz, vindos de onde foram produzidos, no CERN, em Genebra, a 730 km de distância.

As tentativas de explicação variam enormemente pela lista do ArXiv. Susan Gardner, da Universidade do Kentucky, nos EUA, acha que o pessoal do OPERA foi ludibriado por efeitos cosmológicos devidos à matéria escura. Carlo Contaldi, do Imperial College de Londres, também acha que eles se enganaram, e o vilão teria sido a interpretação do conceito de simultaneidade adotada - o tempo se comporta de forma bem diferente do que estamos acostumados no cotidiano pode nos pregar peças. Há quem ache que o grupo foi vítima de meras interpretações estatísticas equivocadas, como Robert Alicki, da Universidade de Gdánsk, na Polônia. É que os dados, colhidos durante três anos a fio, são em número imenso e devem sofrer análise estatística, uma tarefa melindrosa e cheia de sutilezas conceituais.

Convivência difícil, mas possível - O problema em supor enganos dessas espécies é que os cientistas do OPERA parecem ter feito um excelente trabalho. No entanto, a teoria da relatividade também vem fazendo um trabalho espetacular - suas previsões vêm sendo confirmada por inúmeros experimenetos já faz quase um século. Assim, há cientistas que apostam que tanto os resultados quanto a relatividade estão corretos. Isso é possível, mas há um preço conceitual nada baixo a se pagar.

Por exemplo, Steven Gubser, da Universidade de Princeton, nos EUA, pretende resolver o paradoxo por meio de dimensões espaciais a mais além das três a que conseguimos perceber. O neutrino teria viajado por dimensões extras, produzindo a ilusão de uma velocidade muito grande. Já Alex Kehagias, da Universidade de Atenas, imagina que a Terra produza um campo de forças ainda desconhecido, além do conhecido campo gravitacional e do seu campo magnético. Surpreendentemente, ele conseguiu escrever a fórmula de um campo que consegue ao mesmo tempo ser compatível com a relatividade e produzir neutrinos mais rápidos que a luz.

Ao fim e ao cabo, a conclusão é a mesma que os próprios autores advertiram desde o primeiro momento: uma conclusão precisa terá que esperar que outros grupos de pesquisa verifiquem se conseguem reproduzir os resultados do OPERA. Isso pode levar uns anos. Enquanto isso, podemos especular à vontade: já há teóricos dando os primeiros passos para construir uma teoria alternativa à relatividade especial. Um dos artigos da lista do blog do ArXiv é justamente sobre isso.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O que ó raios é o bóson de Higgs? E porque tanta gente fala nele?

Quem se liga nesses assuntos talvez tenha tido sua atenção para o casamento de Kate e William quase ofuscada pelas peripécias de uma estranha celebridade: o bóson de Higgs. Nos últimos dias, disse-se e se desdisse que a alcunhada "partícula de Deus" finalmente teria sido descoberta em Genebra, no LHC, o maior acelerador de partículas do mundo. Só que pouquíssima gente sabe o que é esse Higgs, e menos ainda por que está sendo tão caçado.

O bóson de Higgs é a última partícula prevista pela teoria atual da física subatômica (o "Modelo Padrão") cuja existência ainda não foi confirmada por experimentos. A previsão é consequência de um artifício teórico embutido no modelo para explicar por que quase todas partículas subatômicas têm massa. Por isso, diz-se, popularmente, que eles "são responsáveis" pela massa das partículas, ou mesmo do Universo (daí o apelido "partícula de Deus, dado pelo físico Leon Lederman em 1993). Na verdade, é o artifício teórico (chamado "mecanismo de Higgs") que é responsável por isso; a existência dos bósons de Higgs é uma consequência necessária desse mecanismo.

E por que estão todos tão entusiasmados atrás dele? Porque, se não existir, o mecanismo de Higgs também não existe. Logo, a teoria atual estará quase totalmente errada! É difícil de acontecer, pois outras consequências do mecanismo de Higgs já foram observadas. Mas, se for esse o caso, de volta à prancheta de desenho. Ou nem tanto: já há candidatas a teorias alternativas prontas que não prevêem bósons de Higgs, que usam outros artifícios teóricos diferentes do mecanismo de Higgs. Se o futuro reserva algo a elas, é esperar para ver.

Mas eu, pessoalmente, não creio que isso explique todo o auê em torno do Higgs. Há outros fatores em jogo. Um deles é que os físicos estão escaldados desde que o Congresso dos Estados Unidos cancelou a construção do que seria o maior acelerador de partículas do mundo, o SSC (Supercolisor Supercondutor), em 1993. Seria maior até mesmo que o LHC (Large Hadron Collisor, ou Grande Colisor de Hádrons), o maior atual. É preciso convencer os governos a financiarem essas imensas máquinas construídas para escrutinar os fenômenos subatômicos (não é pouco: o LHC é basicamente um anel de 27 quilômetros de comprimento). E a quererem construir outras maiores quando o que já se tem não for mais suficiente. Parece que os físicos foram bastante eficientes em convencer a imprensa de que o Higgs vale a pena.

Além disso, há o "efeito competição". Apenas dois aceleradores são grandes os suficiente para produzir os bósons de Higgs e, portanto, observá-los (se existirem): o Tevatron, em Batavia, Illinois, nos EUA, e o LHC, perto de Genebra, o maior de todos. O caso dos EUA é particularmente sensível porque eles perderam o SSC, que seria maior que o dos europeus. Resultado: está dada a largada.

O fuzuê desses dias foi porque o pessoal do LHC encontrou indícios da existência do Higgs. Isso já aconteceu algumas vezes - indícios já apareceram nos últimos anos tanto no LHC quanto no Tevatron, mas ainda não foram conclusivos. O problema é que alguém colocou num blog interno do laboratório umas afirmações mais afoitas e parte da imprensa interpretou que eles tinham efetivamente encontrado o bóson. Seguiram-se desmentidos juntamente com ótimas análises desse interessante flagrante de como cientistas também são seres humanos (obviamente) - como este do The Guardian e o do blog Questões da Ciência, de Bernardo Esteves.

A busca continua.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O poder do zero: experimentos que não encontram nada podem nos ensinar muito

Quando físicos encontram algo diferente em seus experimentos, pode dar notícia de jornal. Quando não encontram nada, bem... Também pode! Esta postagem do Igor Zolnerkevic no seu blog Universo Físico dá três exemplos recentes, um dos quais mereceu até menção no New York Times.

Resultados nulos podem causar revoluções - O caso mais famoso de resultado nulo para um experimento talvez seja o da experiência de Michelson-Morley, na década de 1880, que produziu nada menos que uma das principais bases empíricas da teoria da relatividade. Acreditava-se então que a luz era uma onda que se propagava em um meio material a que chamavam éter e que permearia todo o espaço em todos os seus interstícios. O experimento procurou detectar qual a velocidade da Terra em relação ao éter. O pano de fundo era uma incompatibilidade aparentemente insolúvel entre a mecânica e o eletromagnetismo. Um dos dois tinha que estar errado.

Para medir a velocidade da Terra em relação ao éter, observaram diferenças na velocidade da luz vindas de diferentes direções. Se a velocidade fosse maior numa direção, é que a Terra estaria se deslocando para lá - assim como a velocidade de um carro na estrada é maior em relação aos automóveis que vêm em sentido contrário. Mas... não encontraram diferença alguma para qualquer direção! Como poderia ser isso? Após excluírem algumas possibilidades, o resultado sustentou o "vencedor" para a queda-de-braço entre mecânica e eletromagnetismo: este último estava certo e a velha mecânica newtoniana teve que ser alterada, sendo substituída pela relatividade quando velocidades são muito grandes, próximas à da luz.

Claro que resultados nulos que desafiem teorias vigenetes podem ser apenas uma ilusão, um erro de experimento, uma coincidência. O terceiro exemplo do texto do Universo Físico trata disso, na área da astrofísica. O contrário também pode ser verdadeiro: achados extraordinários podem revelar-se, após uma análise mais cuidadosa, serem apenas variações estatísticas normais sem maiores significados. Disso trata o primeiro exemplo, sobre aparentes indícios de uma força física desconhecida. Ambas precisam de mais investigações para se tornarem conclusivas.

Para evitar essas armadilhas, foram desenvolvidas técnicas estatísticas sofisticadas de análise dos dados e também a necessidade de posturas muito cuidadosas. Não poucos cientistas que se entusiasmaram demais antes do tempo tiveram que aceitar calados um desmonte fulminante de suas esperanças. Isso pode ter acontecido recentemente na área da cosmologia com um dos maiores físicos da atualidade, Roger Penrose (vide os dois últimos parágrafos deste post). Outra controvérsia do tipo, sobre o efeito do acesso livre a artigos científicos sobre o número de citações dos mesmos, é comentada nos dois últimos parágrafos da primeira seção desta outra postagem. Mesmo nesses casos, os resultados aparentemente nulos nos ensinam sobre como aperfeiçoar os métodos científicos.

Resultados nulos podem aumentar o conhecimento - Resultados nulos podem também, paradoxalmente, nos fornecer informações a mais. Desse tipo é o segundo exemplo comentado no texto do Universo Físico, sobre a matéria escura. Já em outra postagem no Ciências e Adjacências, no final do texto, falo sobre um experimento para detectar os bósons de Higgs, partículas previstas pelo modelo teórico atual mas ainda nunca observadas. A teoria não diz qual deva ser sua massa, só sabemos que é grande demais para serem produzidos pelos aparelhos atuais. Pois eis que o dito experimento detectou... nada.

Não significa, porém, que o Higgs não exista. Ao invés, com esse experimento pôde-se prever sua massa de forma mais precisa. Como não se sabe sua massa, são feitos vários experimentos, supondo diferentes valores para ela. Cada vez que o bóson não é encontrado, aprendemos que, se existirem, eles não terão aquela massa procurada. Por exemplo, antes achava-se que a sua massa deveria estar entre 123 e 198 vezes a massa de um próton. O novo experimento conseguiu excluir a faixa entre 160 e 170 "prótons". E assim os resultados nulos vão aumentando nosso conhecimento que a teoria não é capaz de fornecer - pelo menos, o "conhecimento hipotético". Vai-se "fechando o cerco" ao bóson de Higgs.

P.S. - Os resultados nulos ou "negativos" de experimentos são tão importantes que o Roberto Takata me enviou os links de três periódicos científicos inteiramente dedicados a resultados negativos em Biologia e Ciências da Saúde:

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Fique por dentro da física moderna

Várias pessoas curiosas a respeito da mecânica quântica já me pediram sugestões de livros acessíveis a leigos. Para quem vê o assunto pela primeira vez, costumo indicar o de John Gribbin, "Fique por dentro da física moderna", editora Cosac & Naify (2001).

Não foi fácil escolher. Em geral as obras de divulgação sobre quântica e relatividade ou são demasiadamente complexas - por mais que seus autores não achem - ou são simples mas contém imprecisões demais - em geral, na forma de metáforas mal formuladas. De fato, a simplificação tende a prejudicar a precisão, e o excesso de precisão pode impedir a inteligibilidade.

No início, eu simplesmente não tinha opções que me pareciam satisfatórias para sugerir. Até descobrir esse livrinho. Creio que o astrofísico e divulgador científico britânico John Gribbin achou, em suas obras, um jeito de explicar a física de forma extremamente acessível e ao mesmo tempo suficientemente precisa, que atingiu seu ápice neste volume.

Esse livro não e só sobre mecânica quântica: cobre também as teorias da relatividade, a cosmologia e a física das partículas e tem uma introdução sobre a física clássica (pré-relatividade e pré-quântica), necessária para se compreender o que veio a seguir. A preocupação é em explicar os conceitos. Um ponto fraco está justamente em falar muito pouco sobre as bases experimentais das teorias.

A acessibilidade não vem só do estilo do texto, mas também do formato. Cada par de páginas é quase autocontido, com um conjunto de pequenos textos e boxes com explicações adicionais, palavras-chave ou pequenas biografias dos cientistas envolvidos. O leitor pode seguir o livro da primeira à última ou deliciar-se folheando-o e se detendo no que lhe der mais prazer. Eu sugiro ambas simultaneamente: uma leitura sequencial ao mesmo tempo em que o leitor explora as páginas do resto do livro, totalmente à mercê de sua própria curiosidade.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Corrida pelo bóson de Higgs

Quem finalmente encontrará o famigerado bóson de Higgs? Os europeus apostam no Large Hadron Collider, ou Grande Colisor de Hádrons (LHC), em Genebra, o maior acelerador de partículas do mundo. Os estadunidenses, no Tevatron, o segundo maior, em Batavia, no Illinois (figura ao lado). A última cartada foi deste último, nesta semana - não o encontraram, mas conseguiram apertar ainda mais o cerco.

Diz-se "competição", mas não é daquele tipo que cause transtornos. É algo amigável, tão boa quanto uma boa cooperação. A razão do frenesi é que o bóson de Higgs é a última partícula prevista pela teoria cuja existência ainda não foi confirmada por experimentos.

Se ela não for encontrada, será necessário rever boa parte do "Modelo Padrão", o prosaico nome da teoria atual sobre as partículas elementares. A razão é que, para ser compatível com a existência de partículas com massa, o Modelo Padrão precisa incluir um artifício teórico chamado “mecanismo de Higgs” – que tem como conseqüência colateral a necessidade da existência de partículas novas, chamadas “bósons de Higgs”. Se não, na teoria haveria apenas partículas sem massa, que se reduziriam a “pacotes” de energia viajando pelo espaço (como os fótons de luz). Por isso, diz-se que os bósons de Higgs são “responsáveis” pela massa das partículas elementares.

Assim, se o bóson não for encontrado, o tal mecanismo não existiria, e então os teóricos teriam que imaginar algum outro para dar conta das massas – o que poderia levar a novas teorias e previsão de novos fenômenos desconhecidos.

A busca se guia pela massa do próprio Higgs. Ninguém sabe quanto é, de modo que os experimentos têm que sair explorando diversas faixas de valores para ver se enxergam algo. À medida que não é encontrado, os valores possíveis vão se restringindo. Atualmente, está entre 123 e 198 vezes a massa de um próton (ou seja, entre 114 e 185 GeV/c2). A última cartada foi do Tevatron, na última semana. Segundo o seu boletim informativo, os grupos de pesquisa CDF e DZero conseguiram excluir a faixa entre 158 e 173 GeV/c2.

Aos poucos, o cerco vai se fechando. Em pouco tempo veremos se realmente existe algo se escondendo dentro dele.