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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Pré-História da Informática: a era dos KB

Vocês conseguem se imaginar jogando vídeo-game num microcomputador de apenas 48 KB? Pois esse bichinho ao lado era capaz de fazer isso. E com uma resolução de tela de 128 por 48 pontos. Esse é o DGT-100, dos primórdios dos microcomputadores brasileiros, no início dos anos 1980.

Foi meu primeiro micro e eu jogava até Galaxy Invaders nisso - ah, isso é um jogo antigo, em que havia um monte de naves me bombardeando e eu tinha que destrui-las. O computador original tinha apenas 16K, mas a gente era "metido a besta" e arranjou um com extensão de memória... E eu achava aquilo uma enormidade. "Nunca vamos conseguir encher essa memória inteira", pensava (hoje algumas páginas de Word já lotam tudo...).

"Disgo rídigo" K-7 - Reparem que a TV sobre dele é uma TV, mesmo. Em preto-e-branco. Você podia desligá-la do resto e assisti-la normalmente. Ao lado, há um gravador cassete (fitas magnéticas). As fitas Scotch faziam o papel de disco rígido... Tínhamos pilhas delas no armário. Levava minutos para ler um programinha de 1K.

O barulho que fazia quando o computador gravava os programas nas fitas era quase o mesmo da Internet antes da banda larga - lembram-se? "tchhh... nhóim...! krrrrrrr... tchhhh... nhóim...! krrrrr....." Impressora? Usávamos máquinas de escrever, dessas que hoje você vê em museu. Som? Apenas uma nota de cada vez.

Havia coisas mais toscas ainda, da linha TK. Vinha só o computadorzinho e você tinha que plugá-lo na sua própria TV, cuja tela piscava inteira toda vez que você escrevia uma letra.

Mas era impressionante o que se conseguia fazer com aquilo. Programinhas simples e criativos. Havia um "labirinto" genial chamado "Quest" que não tinha desenhos, apenas pequenas descrições em versos de onde você estava.

Os gringos não gostavam - Isso era na época da política de reserva de informática do Brasil, pela qual nosso país chegou até a receber sanções do governo dos Estados Unidos. Nós literalmente copiávamos as CPUs dos computadores deles e colocávamos outra carcaça em volta. O DGT-100 era igual ao TRS-80 de lá.

Talvez para não ficar igual ao deles, a cada vez que você apertava uma tecla do DGT-100, fazia um "pi!" agudo. Como eu digitava muito rápido, era um pipipipipipipipi sem parar que deixava todo mundo doido.

Podíamos abrir todos os programas! - Parecia tosco - e era -, mas havia algo muito legal: tínhamos acesso a tudo dentro da memória, inclusive a programação residente. Podíamos abrir os programas em Basic ou em linguagem de máquina para ver como funcionavam. Podíamos criar novos programas. Podíamos até ver o que acontecia se mudássemos alguma coisa na memória residente. Em geral, o computador travava, mas era só dar reboot que voltava ao normal.

Eu e meus amigos ficávamos fuçando novas comandos do Basic e quando descobríamos um novo íamos correndo contar uns para os outros, entusiasmados. Aprendi Basic assim. Fiz programinhas de toda espécie, de matemática, editores de texto, animações toscas e até um jogo-da-velha. Era divertidíssimo.

E não havia bugs, nem vírus. Quer dizer, bugs, só nos programas que a gente fazia. Hoje, é uma caixa preta. Ningúem sabe o que vem dentro desses aplicativos-Coca-Cola.

Enquanto isso, nas universidades... - Demorou para que essas coisinhas chegassem às instituições de ensino e pesquisa. Na UFPR, só em 1986, pelo que me lembro, já bem mais avançados que o DGT-100 acima. Antes, sequer tínhamos acesso aos computadores. Codificávamos os programas em cartões, perfurando-os com umas máquinas barulhentas dentro de uma sala barulhentíssima. Entregávamos para a moça no balcão e esperávamos uns dias para ver o resultado. Uns dias, sim, mesmo que fosse um exercício simples, tipo 2+2.

Voltávamos então ao balcão e a moça entregava um formulário contínuo - uma quantidade de páginas separadas por picote - com uma montanha de coisas incomprrensíveis escritas e, em algum ponto, o resutlado da conta ou então: "erro". Aí tínhamos que verificar o que podia estar errado, voltar à sala barulhenta, perfurar novos cartões e repetir o processo.

E pensar que foram à Lua desse jeito. Às vezes tenho a impressão de que temos obrigação de fazer muito mais, hoje...

2 comentários:

  1. rafael evangelista1 de abril de 2011 14:21

    cara, vc já leu hackers, do steven levy? um baita passeio na história dos primórdios da computação, acho q vc iria curtir. tem um capítulo inteiro sobre os primeiros caras que faziam games, muito legal. se quiser, tenho o pdf

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